Reflexões de uma mente confusa
As pessoas, maravilhosa invenção divina. Mais engenhosa e despropositada arquitetura, a humanidade. Lembra essas construções enormes cuja função é impressionar, estabelecer hierarquias e determinar poderes. Levam séculos para serem pensadas, anos para serem projetadas e construídas, segundos para serem destruídas. A quem será que Deus queria impressionar com um feito de tamanha magnitude? O vai-e-vem de pessoas é constante da onde eu vejo. São duas horas da tarde, sai de casa com o intuito de ir ao cinema e acabei aqui, sentada numa mesa quase que escondida observando tudo que acontece ao me redor e me sentindo alheia a todo e qualquer acontecimento. Cada pessoa segue o seu caminho, dificilmente alguém olha para o lado e quando o faz parece não perceber nada, talvez não tenha tempo. Será que Deus criou o tempo ou será que Ele, assim como eu, o repudia? Eu gosto de acreditar em seu repudio. Acho que o tempo foi uma invenção do demônio patenteada pelo homem e por causa do livre-arbítrio, Deus nada pôde fazer? Não gosto de pensar em Deus como um ser de superioridade infinita, temível e distante de mim. Acredito em Sua justiça sem duvidar de Sua extrema compaixão por aqueles que erram feio e bastante. Prefiro acreditar em Sua capacidade de compreensão a temer o Seu implacável julgamento.
O tempo passa, as pessoas passam. De repente, um menino esbarra em mim, ao se desculpar ele diz algo que cala o meu "não tem problema!", ele diz: "Eu não vi você!". Acredito de verdade no que disse, o menino fez sua afirmação de maneira tão enfática como se quisesse me convencer de que a culpa do acidente era minha por não me fazer notar. Com um sorriso mudo, concordo com ele. Talvez seja responsabilidade minha, eu ser invisível. Passado algum tempo, continuo sentada no mesmo lugar de que quando comecei a escrever. Não sei se estou pensando, mas algo quebra o meu ostracismo. Um homem senta-se à mesa e para olhando para mim, eu o olho de volta. Percebendo que nada vou falar, ele diz: "Você é linda". Não penso numa resposta e nem em sua frase. Ele repete: "Você é linda, sabia?". Sua segunda versão me força a dar-lhe uma resposta. Agora, de fato, penso em algo para respondê-lo. Mas, naquele momento o silêncio é a única coisa inteligente que me ocorre. Talvez se ele disser uma terceira vez, ele me convença de que o que diz é verdade e assim saberei o que dizer. Contudo, ele desiste de repetir, assim como há muito tempo desisti de tentar acreditar, levanta-se e vai embora. Infelizmente, constato que não sou invisível e levanto uma nova hipótese, as pessoas só vêem aquilo o que querem ver.
Na mesa ao lado está um casal de namorados, eles estão conversando. Ele tenta incansavelmente convence-la de que gosta dela, mas se perde ao prestar mais atenção na loirinha tomando sorvete de que em suas palavras. A namorada percebe (como alguém pode se distrair ao jurar amor eterno a alguém?), ele não percebe que ela percebeu, ela percebe que eu percebi e num sorriso pungente, mas vitorioso de quem dessa vez escapou, ela se levanta e vai embora. Ele não entende o porquê dela ter ido, porém parece não saber se segue à namorada ou se continua a realizar-se naquele sorvete. Resultado: ele vai atrás da namorada. "Você precisa de alguém que te dê segurança, senão você dança.", esse foi seu último pensamento antes de deixar a mesa, também será o primeiro pensamento dela ao dar-lhe um fora e o seu pior esquecimento ao aceita-lo de volta. Mas, existe alguém totalmente seguro? E seguro de quê? Da solidão, da traição, da dor? Por que você precisa de alguém que te dê segurança e por que essa segurança tem que estar numa outra pessoa? Hipótese, talvez passar a vida à procura de algo que nunca vai encontrar dê à humanidade um eterno motivo para viver.
Está bom de ficar sentada, resolvi andar um pouco. Passei em frente a uma livraria, meu aniversário é domingo, queria me dar algo, algo que fosse especifico meu, que só servisse para mim Sei o que quero ganhar, mas não queria precisar dizer. É engraçado como uma pessoa que não gosta de contar tempo, goste de seu aniversário, que é a comemoração da passagem dele. Vou fazer 21 anos de existência que podem ser resumir em 21 minutos. Não é tão deprimente o quanto parece, vivo intensamente tudo o que quero viver e sou feliz à minha maneira no meu mundo. Um homem acabou de derrubar o celular, o eco do shopping triplicou o barulho, mas ninguém se vira para olhar. Nada pode atrapalhar, as pessoas que parecem acreditar apenas em sua própria existência. No que ele vinha pensando quando o aparelho caiu? No que ele deve estar pensando agora olhando as peças espalhadas pelo chão? Eu gosto disso, gosto de adivinhar o que as pessoas estão pensando ou o que vão dizer. Na minha frente, uma mulher come sozinha, ela apenas come. Não parece estar pensando em nada. Ela viu que eu a observo e percebe, depois de algum tempo, o caderno sobre a mesa. A mulher já não me olha mais do mesmo jeito, eu tenho vontade de sorrir para ela, mas não me dá tempo e nem liberdade, apenas engole e se retira. Ao ir embora, passa por trás da minha mesa na esperança de ver o que estou escrevendo, mas eu a percebi antes que conseguisse seu intuito. Ela se conforma e finge não se importar. Por que ela tinha que fingir não se importar? Talvez se tivesse se sentado comigo à mesa e me perguntado, eu tivesse respondido. Por que tenho que fingir que não me importa que você esteja num motel fazendo sabe-se lá o quê, sabe-se lá com quem, quando tudo o que eu queria era que você quisesse que eu estivesse lá com você? Talvez se eu o perguntasse, você me respondesse, mas o problema esta no que você me responderia, pelo menos assim eu tenho o beneficio da dúvida. Talvez seja por isso que muita pouca gente diz o que pensa. È bem mais simples do que se pensa, eu gosto de você independente do que você sente por mim. Gosto de você não porque você gosta de mim, mas porque gosto de você. Por isso te digo e não tenho porque esconder. Contudo, entendo porque as pessoas não dizem. O amor dá poder ao amado e quem ama se encontra nas mãos de uma outra pessoa e isso o torna inferior diante daquele que se ama. O amor transformado em lógica, em objeto de manipulação, por isso existe o medo de demonstrar tal sentimento. Por que a negação do amor? Hipótese: É melhor a morte do que se entregar tão completamente nas mãos de uma outra pessoa, talvez ela aja exatamente como você age ou agiria.
Eu formulo minhas hipóteses e o mundo parece não se mexer. As pessoas cuidam de suas próprias vidas, não reparam em mim ao observá-las. Umas parecem tristes, outras felizes. Nesse momento em algum lugar do mundo nasce uma pessoa, no mesmo instante uma outra se mata e nada muda, nada parece alterar a inatingível trajetória da humanidade. Eu gostaria que mudasse, gostaria de acordar um dia e o mundo não fosse mais o mesmo lugar que era quando fui dormir. Será que isso faz de mim uma fugitiva? Enquanto a maioria da população dorme tarde e acorda cedo, eu durmo cedo e acordo tarde. Porque todo mundo parece gostar de viver, de passar mais tempo acordado desfrutando da realidade de um mundo que eu tanto desprezo? Uma criança acaba de entrar e percebe o resto do lanche de uma senhora, ela vai à mesa e o pega, a garçonete quer impedi-la, mas segura o impulso. Num gesto de gratidão a menina sorri, num gesto de compaixão ou medo a garçonete finge não vê-la, pois sabe que o patrão viu e mais tarde a repreenderá. Ela não percebe que eu a observo e tampouco sabe que seu gesto me faz ainda ter fé nas pessoas. Num gesto de respeito e honraria, eu deixo o lugar e sorrio para ela, ela retribui o sorriso, mas não sabe por quê. O costume a obriga a agir daquela forma, a maquilagem esconde a feiúra e o medo, a idade e a tristeza, o cansaço e a dor. A minha mente viaja nesse pensamento, as pessoas me lembram os palhaços com seus sorrisos desenhados no rosto para mostrar que estão sempre bem, para esconder do público a sua alma. Mas, se todo carnaval tem seu fim, quem estará preparado para se mostrar e para enxergar ao seu redor quando a pintura sair? Segundos depois de escrever essa frase, me dou conta de que não sou um palhaço, porém me pego desejando ser e pela primeira vez na vida sinto raiva por não conseguir ser igual a todo mundo.
De repente, não estou mais sozinha em minhas observações. Um garoto olha pra mim exibindo a curiosidade que antes era só minha e que me tornava especial. Será que ele vê o que eu vejo? Será que ele se sente da mesma maneira? Eu tenho vontade de perguntá-lo, mas acho que a mãe dele me acharia louca e fico na minha. Agora, são seis horas da tarde, engulo todas as minhas vontades e ligo para meu pai. Fecho meu caderno e me levanto, agora penso se vou dizer ou não que não fui ao cinema, numa boa desculpa para justificar o atraso, numa maneira de obrigar meu irmão a ir buscar a pizza para o jantar, mas penso antes de tudo em ir para o meu quarto, trancar a porta tanto a dele como a minha, e ali, finalmente, me encontrar fora do mundo das pessoas e dentro do meu. Antes de me desligar totalmente de mim penso numa última coisa que me faz rir, será que eu não sou uma pessoa ou será que toda pessoa tem seu próprio quarto assim como eu?
Juliana Karla